Valores essenciais do coworking: Transparência

Valores essenciais do coworking: Transparência

Por Alex Hillman*

Este post é a parte 3 de uma série de 5 posts onde iremos explorar os valores fundamentais do coworking: Colaboração, Transparência, Comunidade, Acessibilidade e Sustentabilidade. Esses 5 valores encontram-se reunidos no Coworking Wiki, um dos repositórios da comunidade coworking mundial disponíveis no portal coworking.com, que tem por finalidade divulgar a cultura do coworking nos cinco cantos do planeta. Estes valores foram preconizados em meados de 2005 pelos criadores do CitizenSpace, primeiro coworking space fundado em São Francisco, Estados Unidos, e desde então servem de inspiração para dezenas de espaços de coworking em todo o mundo.

No segundo post da série exploramos os valores da Acessibilidade no contexto do coworking. Já o valor fundamental da Transparência pode parecer redundante depois de conceituarmos sobre a acessibilidade – o acesso livre e a autosseleção natural na comunidade – mas há aqui uma diferença sutil importante.

O coworking, em sua semelhança com um movimento chamado barcamp, foi fundado por um grupo de defensores de metodologias de código aberto. Basicamente, a ideia da transparência (ou abertura, do inglês “openness”) constitui a razão pela qual o barcamp e o coworking passaram a existir e ganhar força. Assim, sem este valor fundamental, eu certamente não faria parte de uma comunidade global de adeptos do coworking.

Conforme explica Chris Messina (conhecido defensor da internet livre, membro do conselho do OpenID e da Open Web Foundation) nesta entrevista:
“A transparência é, infelizmente, uma daquelas palavras que se tornou um pouco velha e com significado um tanto esquecido… existe transparência no Facebook, na Adobe e até mesmo no governo, cada uma com um sentido diferente. Quando eu penso em transparência, penso em “liberdade”, “fork de código”, e “interoperabilidade”. Independente da definição de “abertura” ou “transparência” utilizada – sim, devemos sempre lutar pela transparência, bem como por decisões mais transparentes, mais expansivas, mais liberais e mais inclusivas. Este deve ser o caso, tanto por razões morais quanto econômicas. Quando penso a respeito também reflito sobre a biologia e o corpo humano. O corpo humano é um “sistema aberto” e prospera em razão da sua abertura. O corpo humano está em constante troca de coisas que não possuem tanto valor por coisas mais valiosas. Independente de estarmos falando de oxigênio e CO2 ou de nutrientes e resíduos, os ciclos do corpo atribuem um valor ao que é útil e excreta o que é inútil ao organismo humano. Ele requer abertura para viver”.

O fato é que Chris e os primeiros idealizadores de espaços de coworking perceberam que tornar o coworking “aberto” poderia evoluir para algo muito maior do que qualquer um deles poderia controlar – o que acabaria por trazer o melhor resultado para a expansão do movimento, como de fato tem acontecido.

Liberdade

Coworking como um movimento engloba liberdade e independência. Representa escolha e liberdade definitiva. A página do Coworking Seattle diz…

“Coworking é fazer uma escolha pessoal de trabalhar ao lado de outras pessoas, ao invés de optar pelo isolamento.
…e isso soa verdadeiro nos comentários de Brad Neuberg sobre o que o levou a criar o primeiro grupo de coworking”.

Forkability

Esta ideia é importante em dois níveis.

“Forkability” é a capacidade de tomar a “fonte” de um projeto e utilizá-la para iniciar um novo projeto. Em software, a fonte é o código (puro). No coworking e para outras aplicações não relacionadas com software, a fonte diz respeito às lições aprendidas, ideias executadas e valores fundamentais.

O coworking tornou-se um fenômeno global porque a ideia era “forkable”, ou seja, que se podia utilizar por todos os adeptos do movimento. Os primeiros fundadores tornaram suas lições, ideias e valores disponíveis para que pessoas como eu – por exemplo – pudessem construir versões próprias de espaços de coworking. E, em retorno, foram criadas ainda mais possibilidades para os recém-chegados ao movimento.

Em nível local, “forkability” significa que os membros de um espaço de coworking devem ser capazes de torná-lo o que quer que seja, dentro dos limites da razão e do bom senso.

Costumo descrever o Indy Hall como um escritório “blank canvas” (tela em branco). Isto é, o que acontece quando fornecemos apenas amenidades básicas de escritório – mesas, cadeiras, energia elétrica, Internet, salas de reuniões, banheiros – e deixamos as pessoas que ocupam o escritório decidir o que é mais importante para elas? Oferecemos a oportunidade de fazê-lo por si mesmas.

As histórias que conto sobre as coisas legais que aconteceram no Indy Hall não são coisas que Geoff (meu sócio) e eu impusemos a maneira a maneira como deviam acontecer. As histórias que conto sobre as coisas legais que aconteceram na Indy Hall são histórias de outras pessoas, nossos membros, que as construíram em cima da infraestrutura mais básica que poderíamos proporcionar.

O que é particularmente fascinante sobre o coworking é que ele oferece subsídios às pessoas para criar novas soluções para velhos problemas, em vez de depender de soluções antigas que não têm funcionado como deveriam (ou já não tão satisfatoriamente como gostaríamos).

Nossos membros sabem que estamos abertos a que tomem o espaço do Indy Hall sob o conceito do “forkability”, especialmente quando as coisas que eles decidem fazer beneficiam outros membros, além de si mesmos.

Interoperabilidade

E o mais importante de tudo, por fim, é que contribuímos para o retorno ao fork original, sempre que possível. Essa é a principal motivação que tenho para compartilhar minhas ideias no blog com outros colegas, bem como participar do Coworking Google Group. Ou seja: todos nós aprendemos muito com os outros, e é sempre muito importante também nos doarmos da mesma forma.

E com tantos “forks” de ideias sobre o coworking correndo pelo mundo hoje em dia, como podemos nos doar cada vez mais, mantendo o ecossistema vivo e saudável?

A compreensão e o comprometimento com esses valores fundamentais – colaboração, transparência, comunidade, acessibilidade e sustentabilidade – são a chave para manter a interoperabilidade entre iniciativas de coworking galgadas no conceito de “forkability”.

Valores fundamentais comuns propiciam um terreno comum para a discussão e o entendimento. Ser capaz de reunir opiniões e ideias díspares será algo cada vez mais necessário, já que aprendemos mais sobre como as pessoas trabalham, e continuaremos a explorar como as pessoas trabalham e porque trabalham – e no que acreditam.
Fonte: Coworking Wiki


* Escritor e co-fundador do Indy Hall, uma das mais respeitadas comunidades de coworking dos Estados Unidos.

Comentários

  1. [...] terceiro post da série exploramos os valores da Transparência (ou abertura) no contexto do coworking. No que diz respeito à Comunidade, esta vem a ser um valor [...]